Após fugir da guerra na Ucrânia, jogador chega a Porto Alegre: ‘alívio de pisar em solo que tem paz’

Uma semana após o início dos conflitos no Leste Europeu, o jogador de futebol Lucas Rangel está de volta ao Brasil. Ele desembarcou no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, por volta das 19h desta quinta-feira (3) e correu direto para os braços da família.

“O verdadeiro sentimento é de alívio, de ter esse contato físico com a minha esposa, com meus filhos, e de pisar em um solo que tem paz e que não vai ter guerra aqui”, disse Lucas.

O atleta do Vorskla Poltava, da Ucrânia, fugiu do país pela fronteira com a Polônia, viajando por 30 horas de carro por conta própria até Portugal.

“Trinta horas de angústia, tristeza, de pensamentos que talvez não consiga mais encontrar tua família, de pânico total. Mas em nenhum momento perde a confiança em Deus”, afirma.

Lucas contou que decidiu ir embora sozinho após informações conflituosas da Embaixada do Brasil na Ucrânia.

“Eu liguei para a Embaixada [do Brasil] e falaram que iam passar tudo pelo [aplicativo de mensagens instantâneas] Telegram. Eles falaram para nós ‘fique em casa, é a melhor forma de vocês ficarem salvos’, mas como tu vai ficar em casa numa situação dessa? A qualquer momento pode surgir uma bomba. Deu um desespero, resolvi dar fuga por conta própria”, disse em entrevista à GloboNews.

O atleta de 27 anos nasceu em Alvorada, na Região Metropolitana de Porto Alegre, mas pouco jogou no país. Nos últimos cinco anos, passou por clubes da Turquia, Finlândia e Albânia.

Na Ucrânia, morava há seis meses em uma cidade a cerca de 1h30 de Kharkiv, a segunda maior cidade do país. Na terça-feira (1º), um míssil atingiu um prédio do governo regional.

Viagem de 30 horas

Avisado por um colega de time, Lucas decidiu fugir da cidade onde morava. “Convoquei meus amigos, os mais próximos, estrangeiros, porque os ucranianos são obrigados a ficar. E aí começou nossa fuga para Lviv”, relatou.

Para não passar por Kiev, onde já havia bombas, o jogador e os companheiros fizeram uma rota alternativa para a fronteira da Ucrânia. “Se a gente passasse por Kiev, não sabia se ia sobreviver”, contou.

Um trajeto que seria de cerca de 13 horas acabou levando 30, conta ele. Depois, ainda seguiram cinco horas a pé. Na fronteira, encontraram uma fila de ucranianos e uma de estrangeiros para deixar o país. Ao chegar na Polônia, veio a sensação de alívio.

“Só quem estava lá sabe o inferno que é aquilo. Tu vê muitas tragédias. Os pais tendo que entregar as crianças por cima do portão para as mães, as crianças chorando. É muito triste. Jamais pensei que ia passar por isso”, disse.

A ida para o time ucraniano representava a esperança de construir uma carreira de sucesso no futebol, diz Lucas. “Eu estava vivendo um momento muito feliz, porque fui diretamente com a minha família para a Ucrânia. Comecei a fazer bons jogos, me destacar. A felicidade do atleta quando começam a acontecer coisas”, reflete o atleta.

A tensão pela imprevisibilidade dos acontecimentos fez com que ele repensasse e valorizasse os gestos simples, como o reencontro com a família.

“Pra mim foi muito triste quando essa guerra estourou, mas deixo um recado pra todas as pessoas: que aproveitem sua família, não perca tempo de falar um ‘eu te amo’ para o teu pai. Tu vê como um beijo ou um abraço faz falta. Quando tá numa situação dessa, a única coisa que vem [na cabeça] é a tua família e as pessoas que tu ama”, afirma. 

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