Em meio a bate-boca, Moro deixa sessão na Câmara sob gritos de ‘fujão’

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Sob gritos de “fujão” e “ladrão” e acompanhado de escolta, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, deixou às 21h40 de hoje a audiência da Câmara de Deputados sobre as mensagens que teria trocado com procuradores da Lava Jato, divulgadas pelo site The Intercept desde o mês passado. A deputada Professora Marcivania (PCdoB-AP), que presidia a comissão naquele momento, encerrou a audiência após um bate-boca generalizado tomar conta da sessão, que se arrastava por mais de sete horas e ainda tinha dezenas de deputados inscritos para fazer perguntas ao ministro.

O depoimento de Moro começou por volta das 14h. Passava das 21h quando o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ), da oposição ao governo Bolsonaro, afirmou que Moro era um “juiz ladrão”.

“O senhor vai estar sim nos livros de história, vai estar como um juiz que se corrompeu, com um juiz ladrão. É isso o que vai estar nos livros de história”, disse Braga.

Indignados, parlamentares governistas se levantaram e foram para cima do colega. Os ânimos se acirraram.

Em meio à confusão, o ministro saiu por uma porta lateral. A deputada Marcivania declarou encerrada a audiência, voltou atrás, a pedido de colegas, e finalmente acabou finalizando os trabalhos após a constatação de que o ministro havia ido embora.

A confusão teve duelo verbal entre os deputados federais Alexandre Frota (PSL-SP) e Zeca Dirceu (PT-PR) – que saíram em defesa, respectivamente, de Moro e de Braga.

“Seu pai está preso! Seu pai está preso!”, gritou Frota, em referência ao ex-ministro José Dirceu, preso após investigação no âmbito da Lava Jato. Zeca rebateu dizendo que “ao menos ele estava na sessão”, ironizando a saída de Moro.

Além do bate-boca, guerra de cartazes e ironias, a sessão foi marcada por poucos argumentos novos:

O ex-juiz federal usou alguns dos argumentos já apresentados em 19 de junho no Senado: Ele voltou a questionar a autenticidade das mensagens divulgadas e afirmou que alguém pode ter alterado o conteúdo publicado;

Disse também que não houve “conluio” entre ele quando era juiz e o “Ministério Público”;

Reiterou que as mensagens têm o objetivo de “invalidar condenações”

Mas também trouxe argumentos novos:

O ministro da Justiça disse que não protagonizou a Lava Jato;

“Nunca me coloquei numa posição central nessa operação. Isso é uma coisa que eu particularmente rejeito”.

Ele acusou ainda o the Intercept de querer ser “mártir da imprensa”, por não ter consultado as partes envolvidas nos diálogos antes da publicação;

Moro voltou a cogitar que “pode ter dito” algumas das mensagens divulgadas – como a frase “In Fux we trust” (“Em Fux confiamos”), em referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).

“Eu posso ter dito, eu não lembro, isso foi em 2016. Seria uma paródia do dólar norte-americano. Algo mais inocente possível, se é que isso foi empregado”.

Após a afirmação do ministro, o jornalista Glenn Greenwald, cofundador e um dos autores das reportagens do site The Intercept Brasil, postou em seu Twitter que as ameaças de Moro não intimidarão o veículo. “Nenhuma intimidação ou ameaça interromperá as reportagens. Ameaças do estado só servem para expor seu verdadeiro rosto: abuso do poder – e por que eles precisam de transparência de uma imprensa livre”, disse.

Moro também classificou as críticas sobre as mensagens como “ataque político-partidário” com o objetivo de tentar anular condenações da Lava Jato.

“Hackers criminosos invadem aparelhos de agentes da lei para anular condenações criminais e por outro lado impedir novas investigações. Quando se reclamam de condenações que têm que ser anuladas, normalmente a referência é a um único personagem, mas ninguém se levanta para defender Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Renato Duque ou todas aquelas mais de 100 pessoas que foram condenadas por corrupção e lavagem de dinheiro”.

Moro teria aceitado nomeação no governo Bolsonaro como recompensa por tirar Lula da disputa eleitoral;

Dois deputados do PT sugeriram que Moro abrisse mão do sigilo do celular para provar que não é autor das mensagens divulgadas;

Deputados da oposição dizem que os diálogos mostram que Moro teria perdido a imparcialidade necessária para julgar processos da Lava Jato, o que poderia levar à anulação da condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Ao aconselhar a substituição ou o treinamento [de uma procuradora], vossa excelência sai do papel de juiz julgador e passa pro lado da acusação? Não fica claro que nesse momento vossa excelência perde o principal capital político de um juiz na democracia, que é a imparcialidade?”

Como os governistas defendem Moro: Deputados do PSL afirmam que as conversas divulgadas não revelam ato irregular de Moro;

Aliados do governo também dizem que o objetivo das críticas a Moro é libertar o ex-presidente Lula;

Deputados da situação também dizem que a oposição quer ofuscar os escândalos de corrupção que teriam ocorrido no governo do PT – e fizeram referência à planilha de Odebrecht e a apelidos de petistas registrados na lista de repasses da construtora.

“[O objetivo] principal de todos é a libertação de Lula, outro objetivo era a desconstrução da Lava jato e de sua principal figura, por que não dizer mítica, Sergio Moro. Tinha um terceiro grande objetivo que era desconstruir e impingir [impor] uma grande derrota ao governo”

Fonte: Bol

 

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