Levar crianças para a cozinha é forma gostosa de estímulo à alimentação saudável

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Para muitos pais e mães, juntar criança e cozinha parece a receita para a bagunça. Com vidas atribuladas, o preparo das refeições é um momento em que a ideia de dividir a atenção entre os pequenos, o fogão ligado e as facas parece não fazer muito sentido. Mas faz. Metade da população brasileira está acima do peso — condição associada a doenças crônicas como diabetes e hipertensão. Crianças passam a infância expostas ao marketing irresistível de comidas industrializadas e fast food. Brincar com a comida é uma forma de despertar o interesse pela boa alimentação.

Se a criança se familiariza com os alimentos desde cedo, ela vai se alimentar melhor — afirma Ágata Oliveira, professora do curso de Gastronomia da Unisinos que promove, em aula, atividades em que alunos da graduação mostram aos pequenos que a alimentação nutritiva também é saborosa, e aprender a prepará-la é gostoso e libertador.

— Tentamos trabalhar um pouco de ciência do alimento, o que é aquele ingrediente, de onde vem, quais as características. Sempre que podemos, fazemos uma oficina prática em que eles participam da montagem de lanches saudáveis — exemplifica a professora, ressaltando que é fundamental a supervisão constante de um adulto.

A regra nas aulas é: pode não gostar, mas tem de experimentar.

— Uma menina que não comia frutas chorou pela experiência. Conversamos e ela disse que ficou muito feliz de ter provado a fruta, porque a mãe dela havia dito que, quando menor, sempre que ela comia fruta, ela vomitava. Quando encontrei a mãe, ela disse que a filha tinha ficado tão feliz que queria que fosse feriado nos dias das oficinas — lembra.

A professora pondera que de nada adianta esse contato inicial se não houver continuidade. Além de estimular uma alimentação mais consciente, levar os pequenos para a cozinha é uma oportunidade de criar espaço e tempo de convivência familiar. Afinal, uma boa refeição é um prazer ainda maior quando compartilhada com quem se quer bem.

Segurança para quem mais necessita

A Unisinos também desenvolve ações sociais para fortalecer a segurança alimentar de crianças em situação de vulnerabilidade social.

— Quanto mais precocemente conseguimos estimular a alimentação saudável, maior é a chance de as crianças manterem essa alimentação na idade adulta. Os hábitos alimentares começam a se formar já no aleitamento materno, quando o bebê experimenta sabores diferentes a partir da dieta da mãe — afirma a professora do curso de Nutrição Denise Zaffari, que coordena projetos de segurança alimentas desenvolvidos pela Unisinos junto ao Banco de Alimentos em Porto Alegre e no Vale do Sinos.

Parte das atividades beneficia crianças de 180 escolas de Educação Infantil comunitárias e filantrópicas na Capital. O projeto Primeiros Passos trabalha com cuidadores de bebês de quatro meses a dois anos, promovendo, por exemplo, a alimentação complementar nutritiva e o estímulo ao aleitamento materno. O Nutrindo o Amanhã trabalha a alimentação das crianças pelo viés da Nutrição, e o Oficina do Sabor, pela via da Gastronomia. Em ambos, os pequenos põem a mão na massa.

— São oficinas de culinária, mesmo. Fazemos hambúrgueres mais saudáveis, pizzas mais saudáveis. Não adianta começar com um pé de brócoli. Mudar o hábito alimentar sem prazer não funciona — pondera.

Como as crianças atendidas pelos projetos do Banco de Alimentos encontram-se em situações de vulnerabilidade, existe a preocupação com a acessibilidade e o aproveitamento dos ingredientes. Os pequenos que participam das oficinas semeiam a mudança de hábitos nas famílias.

— Além do ganho do ponto de vista da saúde, crianças são veículos de disseminação de conhecimento, levam esse aprendizado para casa. Há muitos relatos de pais cujos filhos passaram a pedir que comprassem alimentos saudáveis — exemplifica Denise.

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